Cada vez mais tenho me interessado por culturas corporativas eficientes e verdadeiras. O encanto não é por playbooks, manuais de identidade, reuniões estratégicas de boards ou a famosa tríade missão, visão e valores que, quando muito, ficam jogados em algum lugar lá no site institucional ou nas descrições de vagas em processos seletivos.

O que mais me fascina é pensar que há empresas, independentemente do tamanho e de outras variáveis que complicariam a disseminação da cultura, que conseguem fazer com que seus funcionários remem em um único sentido em direção aos objetivos da organização. Empresas que, no dia a dia e não só em premiações e palcos, conseguem ser reconhecidas e reconhecer. A Netflix é uma delas.

E, pelo que tenho visto com o desenvolvimento da smartrips.co e estudado nos últimos tempos, um dos pontos mais importantes, e que é comum a todas organizações admiráveis e que possuem culturas fortes, é a autonomia de seus funcionários.
Há diversos aspectos sensíveis e relevantes quando pensamos na cultura de uma corporação. De toda a cadeia de processos, passando pelas relações interpessoais e chegando até mesmo nas métricas de performance.
Porém, o que é mais intrigante no caso da autonomia é que ela por si só é capaz de funcionar quase como um termômetro de quanto a empresa consegue colocar seus reais valores e suas visões em cada decisão de seus funcionários. Ela serve como um medidor de todos os outros aspectos e da saúde da cultura corporativa. O quanto cada funcionário é um First Principle Thinker.

A ideia de First Principle Thinking e a Netflix

Ouvi sobre o conceito pela primeira vez na sensacional participação do Reed Hastings, Fundador da Netflix, no episódio 8 do Masters of Scale. Descobri que o termo parece ser bem comum (e talvez até clichê) no Vale do Silício, que foi inspirado pela filosofia grega e a física. Nas organizações a aplicação do conceito é a ideia de que as pessoas devem ter suas atitudes sustentadas pelos princípios e crenças fundamentais da empresa.

Como o Reid (o do LinkedIn, não confunda com o Reed da Netflix) deixa claro no episódio, um First Principle Thinker é alguém que em vez de seguir cegamente apenas como um comandado ou se ater a processos e modos de agir bem definidos, pensa e toma decisões com liberdade e sempre se pautando pelo questionamento: O que é melhor para a empresa?

Do Macro ao Micro

No caso da Netflix, essa ideia impacta desde os conteúdos que o pessoal cria por lá até as viagens que os funcionários fazem pela empresa. Em vez de definir políticas rígidas, inflexíveis e até mesmo desconhecidas, a Netflix dá informações e empodera seus funcionários para que eles tomem decisões inteligentes e bem embasadas. Como eles mesmos dizem, o objetivo deles é inspirar os colaboradores mais do que supervisioná-los em cada passo.

Um recorte do famoso deck de cultura da Netflix (que virou texto) evidencia bem essa mentalidade:

“Our model is to increase employee freedom as we grow, rather than limit it, to continue to attract and nourish innovative people, so we have better chance of sustained success”

De acordo com o próprio Reed foi isso que garantiu que a empresa conseguisse retornar ao seu príncipio fundamental e se mover tão rapidamente a ponto de mudar seu negócio de locação de DVDs para o, na época promissor, streaming de vídeos.

Porém, é natural que a medida que o tempo passa, e com o aumento de pessoas e processos, a necessidade de controle ganhe força. Organizações tendem a nascer com mais liberdade e se fechar em processos mais rígidos a medida que crescem. E a realidade diária nos mostra que a maioria das empresas ainda não está no mesmo nível de maturidade que a Netflix alcançou.

Obviamente há vários problemas e aparentemente dilemas durante o crescimento ou em empresas com estruturas complexas como, por exemplo, para contratação rápida de novos funcionários. Dificuldades que a própria Netflix encontrou ao longo de sua jornada.

O desafio, porém, para todas as empresas, independentemente do tamanho ou do grau de maturidade, é conseguir criar mecanismos de alinhamento de interesses e incentivos que façam com que elas tenham cada vez mais decisões sendo tomadas por First Principle Thinkers.


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